Como escolhas políticas e interesses econômicos moldam um sistema feito para beneficiar poucos e manter a maioria à margem
A desigualdade social costuma ser tratada como um problema ocasional, fruto de crises econômicas, má gestão ou falta de crescimento. No entanto, uma análise mais profunda mostra que ela raramente surge por acaso. Na maior parte das vezes, a desigualdade é resultado de decisões políticas, escolhas econômicas e estruturas de poder construídas ao longo do tempo.
Desde a formação das sociedades modernas, a concentração de riqueza e privilégios esteve ligada a leis, normas e políticas que beneficiam grupos específicos. Sistemas tributários regressivos, cortes em políticas sociais, precarização do trabalho e a privatização de serviços essenciais não acontecem de forma neutra. São medidas pensadas e aprovadas por quem detém poder político e econômico, quase sempre protegendo seus próprios interesses.
No Brasil, essa lógica é histórica. A herança da escravidão, a concentração fundiária e a exclusão sistemática das maiorias do acesso à educação, saúde e renda criaram um país onde poucos acumulam muito enquanto muitos sobrevivem com pouco. Mesmo após a redemocratização, a estrutura permaneceu praticamente intacta, apenas com ajustes que raramente alteram o centro do poder.

A desigualdade também se mantém por meio do discurso. A meritocracia, por exemplo, é frequentemente usada para justificar privilégios, ignorando pontos de partida desiguais. Quando se naturaliza a ideia de que “quem se esforça vence”, apaga-se o papel do Estado, das políticas públicas e das oportunidades desiguais que moldam o destino de milhões de pessoas.
Outro elemento central é a influência do poder econômico sobre a política. Grandes empresas e setores financeiros exercem pressão constante sobre governos e parlamentos, moldando leis trabalhistas, fiscais e ambientais. Assim, decisões que afetam toda a sociedade são tomadas para garantir lucros e vantagens a uma minoria, enquanto os custos recaem sobre a população.
Portanto, a desigualdade persiste porque é funcional ao sistema. Ela garante mão de obra barata, enfraquece a organização coletiva e mantém o poder concentrado. Combatê-la exige mais do que crescimento econômico: requer enfrentar interesses consolidados, rever prioridades do Estado e ampliar a participação popular nas decisões.
Entender que a desigualdade é um projeto — e não um acidente — é o primeiro passo para desmontá-lo. Só a partir dessa consciência é possível construir políticas públicas e uma democracia que sirvam, de fato, à maioria da população.